Estava à toa na vida e a pandemia me atropelou

No período da quarentena as pessoas buscaram novas formas de comunicação para romperem a barreira do isolamento e as redes sociais favoreceram isso, e muito.

Tive que me reinventar, ser criativa, buscar alternativas de atender aos meus alunos e à minha clientela e não perder as demandas.

Continuei dando aulas e para isso, me submeti a muitas horas de treinamento online. Vejam o paradoxo: treinamento online para quem não sabe trabalhar online. Enfim, algo que nunca imaginei fazer.
Baita dificuldade para quem nasceu no início da segunda metade do século passado. Parte por preconceito, parte por resistência às novas tecnologias que estavam me provocando e me desafiando.

Foi dado o veredicto e tive que escolher entre duas alternativas: aprende ou aprende. Não havia terceira via. Para surpresa não foi tão difícil assim. Verdade que os colegas mais próximos e os meus alunos, especialmente, ajudaram bastante. Os jovens já nascem sabendo, geração aperta botão, e eles praticamente dão todas as coordenadas.
O que muito facilitou a minha vida, neste momento tecnológico, foi a minha humildade em pedir ajuda e declarar a minha ignorância jurássica. Está dando certo. Ainda não sei usar todos os recursos do ensino à distância, mas o que aprendi até aqui não compromete o conteúdo que preciso transmitir aos meus alunos. Essa é só uma faceta: a da cátedra!

Outra faceta é a da médica e psicanalista. Também não admitia, há bem pouco tempo, fazer telemedicina. Inconcebível! Inimaginável atender um paciente sem ter a chance de toca-lo.
Ainda que entendesse da importância da regulamentação da telemedicina, fui uma das maiores críticas quando o Conselho Federal de Medicina lançou a proposta, antes da pandemia da Covid-19. Eu temia que outros profissionais, não médicos, se arvorassem a atender pacientes, em nome de estruturas empresariais, e que o comércio da saúde se ampliasse em detrimento da qualidade de atendimentos. E aí chega o coronavírus para provar que as coisas não eram exatamente como eu desenhara na minha cabecinha e que a telemedicina, pode sim, prestar um grande serviço em momentos de crise como o atual, em especial na área da saúde mental.

Claro que exames físicos são importantes, inclusive em atendimentos psiquiátricos, mas existem formas de compensar, inclusive com exames complementares indispensáveis e tão importantes para avaliar fatores etiológicos endógenos. E assim, eu me vi atendendo os meus pacientes online.
Psicanálise online, já era autorizada há mais tempo pelo Conselho de Psicologia, enquanto na medicina não era sequer cogitada. Pensei que os meus pacientes resistiriam ao trabalho, entretanto não perdi meus pacientes habituais e até conquistei muitos novos.

A situação do isolamento, gerando tanta insegurança sobre o amanhã, criou uma onda de sujeitos padecendo de muitas crises de ansiedade e angústia, somatizando e jogando no corpo as suas emoções. O medo da morte provocada por um inimigo desconhecido e invisível é apavorante. Não é à toa que os meus pacientes estão tendo crises de ansiedade e estão com dificuldades para dormir.

O fato de estar em casa “full time” faz com que as pessoas acreditem que estamos desocupados e de papo para o ar. Não é verdade!

Estou trabalhando mais do que antes. Os atendimentos médicos continuam, e com o aumento do sofrimento mental, antes escamoteado pelas resistências ou pela psicofobia, agora se revela escancarado, e o telefone não pára, com pessoas deixando mensagens até mesmo de madrugada, solicitando novas consultas.

O meu mundo não parou de girar. As aulas e as pesquisas continuam, os trabalhos de conclusão de curso batem na porta, as orientações roubam o meu tempo, as reuniões estão mais frequentes.

Os grupos de trabalho multiplicaram-se no WhatsApp. As reuniões de trabalho, antes agendadas apenas nos horários comerciais, agora são, sem nenhum pudor, propostas a qualquer hora na semana, de domingo a domingo.

O noticiário também rouba meu tempo e minha energia, pois não para de bombardear as más notícias onde as mortes se acumulam e se multiplicam geometricamente. Será que sou a única a enxergar o perigo?

Sou bombardeada pelos restaurantes que fazem delivery, as lojas de vinho sabem da minha existência, os bancos não param de me ligar com ofertas de empréstimos a juros baixos e novos cartões de crédito.

Se antes eu odiava telemarketing, agora abomino. Eles ligam insistentemente todos os dias, inclusive finais de semana e à noite. São invasivos, insistentes e chatos. Mas eu sou elegante e os despacho sem direito a recursos assim que os identifico e não permito que sequer façam suas ofertas e disparo muito rapidamente a mesma frase: “não tenho interesse, obrigada pela sua ligação e bom trabalho”. E desligo mais rápido ainda, sem que tenham tempo de assimilar a minha resposta, recuperar o fôlego ou o susto. São anos treinando como se livrar do telefonista do telemarketing e agora, em plena pandemia, percebo quão foi interessante ter adquirido esta habilidade.

O comércio e o mundo dos negócios nunca mais serão os mesmos. O vírus acelerou a transferência deles do mundo físico para o virtual.

Também padeço dos meus medos. Mas não posso revelá-los! Sublimo os meus recônditos receios, orientando os meus alunos e pacientes para as melhores condutas de manutenção de rotinas garantidoras de saúde mental. De tanto falar nisso, nas tais lives para as quais sou convidada, que as pessoas estão realmente convencidas que eu sou a maior autoridade em saúde mental durante a pandemia: uma grande expert no assunto. Temo que descubram que não sou tão experiente em sobrevivência nas pandemias.

E hajam convites para podcast, webinar, lives: eventos dos tempos atuais.

Estamos numa fase de saturação de conferências. reuniões e as tais entrevistas. Estou cansada de lives.
São muitas lives, meu bom Pai! Lives com shows musicais de todos os estilos (nunca mais, ou pelo menos não tão cedo, shows com grandes plateias, não existirão por medo de contágio); lives sobre saúde, a mental em especial, inclusive dos trabalhadores da saude; sobre o uso de cloroquina; sobre epidemiologia; prognósticos sobre o futuro; como suportar a convivência tempo integral com família, cônjuges e filhos; como evitar violência doméstica durante a pandemia; como ajudar os filhos no processo ensino aprendizagem à distância; como aprender coisas novas; desenvolver novas habilidades e se reinventar para sobreviver; como otimizar seu tempo e fazer as tarefas domésticas; como administrar a ajuda de 600 reais do governo e viver de forma minimalista; como arranjar um namorado durante a quarentena; terapias de todos os tipos; prognósticos sobre o futuro econômico; receitas do tipo “faça você mesmo”; como cozinhar; como se exercitar; como investir na bolsa; etc etc. Palestras e mais palestras. Ufa!!!!

Descobrimos que todos tem algum talento e que podemos aprender coisas, porém o pior é que todos querem ensinar, quer para se reinventar e manter a visibilidade e manter-se vivo no mercado de trabalho, quer para ocupar o tempo ocioso. E aí está valendo falar sobre alguma coisa, qualquer coisa, aliás, tudo.

Todos viraram especialistas sobre tudo. Meu e-mail e o meu WhatsApp recebem dezenas de convites para as tais reuniões online/ palestras de especialistas/ lives diariamente.

São tantos os convites que você não sabe a quem atende, se atende e ou se você assiste.

Decidi doravante ignorar boa parte dos convites. No início eu estava achando tudo muito interessante. Ficava lisonjeada por ser lembrada e convidada para assistir as palestras. Mas hoje, a sensação que tenho, é que os tais especialistas que tentam me seduzir para estes encontros, estão disputando entre si por mim ou por você, público especial e diferenciado, e realmente estão acreditando que não temos nada de melhor para fazer neste período, a não ser assisti-los. Com mais um requinte: o que antes era cortesia, agora é pago. Descobriram uma mina de ouro, ou talvez só ouro de tolo, não sei.

Cansei! Depois de 70 dias de quarentena, eu me flagrei em uma roda-viva capaz de me adoecer. Pelo fato de estar em casa eu não estava respeitando meus dias, meus horários e os meus limites. E porque eu não o fazia, os meus alunos, colegas e pacientes também não.

Decidida! Não me convidem para assistir, nem de graça, absolutamente mais nada, até a pandemia passar, ou seja quando a vacina chegar.

Quero, doravante, trabalhar menos nesta quarentena, quero respeitar os feriados e finais de semana, não quero trabalhar a noite depois das 18h, quero jantar com todo o glamour com minha taça de vinho. Não quero trocar o dia pela noite. Não quero viver para trabalhar, estudar e escrever. Quero jogar conversa fora e quero assistir um filme divertido.

O tal isolamento está me escravizando, fazendo com que eu esqueça de mim mesma. Basta! Eu quero minha vida de volta, mesmo que seja dentro de casa!

Déborah Pimentel
Imortal das Academias de Medicina e de Educação

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